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No cemitério da cidade, na noite fresca e sem estrelas de sexta-feira (14/8), o povo cantou e chorou
Três Pontas (MG)*. A música e a amizade, essa outra palava para dizer amor, são as coisas mais bonitas da vida. Talvez você esteja, neste sábado (15), se perguntando por quê estou começando estas linhas falando de música e amizade, mas estive (e estarei por um bom tempo, metafisicamente) em Três Pontas, saindo de um cemitério, e é justamente sobre isso que estou pensando. Acabei de ver a Serenata dos Tiso e juro que não há nada mais bonito. Nem mesmo a Lua de Três Pontas. Ao som de “Calix Bento” e da cantoria de cerca de 500 pessoas, aconteceu, no início da noite de sexta-feira (14), mais uma Serenata dos Tiso no Cemitério Municipal de Três Pontas, essa cidade do Sul de Minas que é feita de música, e eu lá estive. Em 2026, a Serenata dos Tiso faz parte da programação do Festival Música do Mundo. A 7ª edição homenageia Milton Nascimento e segue neste sábado (15/8) com shows de Nando Reis, Beto Guedes, Chico Chico, Grupo Ânima, em tributo a Bituca, e Banda Saideira. Mas voltemos à Serenata dos Tiso. Ela acontece desde 1975, sempre no cemitério, e só foi interrompida durante dois anos na pandemia. Começou como uma reunião improvisada da família Tiso e se tornou, ao longo das décadas, mas sem perder a essência daquele entusiasmo etílico cheio de memória, um manifesto de celebração à música, à amizade, aos que aqui estão e também àqueles que já se foram. Antes de tudo acontecer, quando o sol se escondia no horizonte para anunciar a noite trespontana de sexta-feira, 14 de agosto, puxei prosa com Carlinhos Tiso, que tocou teclado e acordeon na serenata. Ele me contou rapidamente como surgiu a história toda: “Começou com um papo de boteco, pessoal tomando cerveja, ‘vamos lá fazer uma serenata para o tio Mário’. Foram, pularam o muro do cemitério e ficaram morrendo de medo de pegarem os pés deles”. A primeira Serenata dos Tiso foi realizada em 1975, pois tio Mário havia dito certa vez que quando fosse embora queria que fizessem uma serenata para ele. E fizeram. E a Serenata dos Tiso, que começou meio de improviso, de papo de botequim, hoje é um marco coletivo-afetivo-cultural de Três Pontas. Tantos anos se passaram e pela primeira vez pude ver de perto essa tal serenata, coisa mais linda do mundo – e nem falo isso entusiasmado pelas cervejas que tomei no hotel. “Por Causa de Você”, “Smile”, “Travessia”, “Imagine”, “João e Maria”, “Encontros e Despedidas”, “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, “Cais”, “Caprichoso” e “Por Una Cabeza” foram algumas das canções interpretadas em 2h lá no Cemitério Municipal de Três Pontas. O maestro e compositor Wagner Tiso, o Wagão, de terno cinza da cor da Lua, deu as caras dedilhando as teclas do teclado em ”Eu Sei Que Vou te Amar” e “Coração de Estudante”. Cristina Veloso, nascida na terra dos Tiso, essa Três Pontas tão musical, depois de morar em São Paulo, Barcelona e Belo Horizonte, não necessariamente nessa ordem, voltou a morar na cidade natal e chorou ao ver a serenata. Cristina é estilista, DJ e estuda piano no Conservatório Conservatório Municipal de Música Gileno Tiso. “Meu pai gostava muito de música. Essa serenata também é para ele”, disse antes de o sol se pôr. O pai de Cristina está sepultado no cemitério onde os Tiso fizeram serenata mais uma vez, como fazem desde 1975. E como vão fazer em 2027. E em 2028, 2029… A música e a amizade, essa outra palava para dizer amor, são as coisas mais bonitas da vida. (*Bruno Mateus / Jornal O Tempo. O repórter viajou a convite do Festival Música do Mundo / Foto: João Godinho / O Tempo).